Pois é, não sei quem sou. Se soubesse, saberia sempre o que fazer e como fazer as coisas. Por enquanto vivo tropeçando de erro em erro e me espantando com a vida. E tem coisa mais espantosa que a vida? Creio que não. Acho até que tenho medo dela. Medo imenso! Procurei durante toda a minha vida estar longe do agradável, do bom, do prazeroso. E então me afastei do escrever, do confessar em palavras os anseios da alma. Agora a vontade de dizer, de contar, de expressar é tão intensa! E aí me vejo de novo a escrever como a menina que eu era nos tempos de escola!
Não envelheci. Continuo a mesma louca e desamparada de sempre. Espero o milagre do amadurecimento enquanto enfio os pés pelas mãos nesse mundo tão vasto! Encontrei gente rara, valiosa! Sofri também minhas decepções! Tento não tirar mais um punhado de terra do poço que cavo para enfiar-me a mim mesma nele. Não adianta. Apesar de meus esforços, o poço está cada vez mais fundo!
Vivo alarmada, sofrendo de desesperanças. Vejo drama de dor e sangue nos rostos de todos, nas atitudes de todos. Mas tenho medo de revelar minhas visões. Talvez não seja nada. Pode ser somente um ponto de vista, nada mais.
O meu problema é não ser eu mesma. O meu problema é tentar ser, inutilmente, os outros.
Quando vou achar o caminho. A ampulheta está impassível deixando a areia escorrer. Os dias estão passando...os dias estão passando...
