Pois é, não sei quem sou. Se soubesse, saberia sempre o que fazer e como fazer as coisas. Por enquanto vivo tropeçando de erro em erro e me espantando com a vida. E tem coisa mais espantosa que a vida? Creio que não. Acho até que tenho medo dela. Medo imenso! Procurei durante toda a minha vida estar longe do agradável, do bom, do prazeroso. E então me afastei do escrever, do confessar em palavras os anseios da alma. Agora a vontade de dizer, de contar, de expressar é tão intensa! E aí me vejo de novo a escrever como a menina que eu era nos tempos de escola!
Não envelheci. Continuo a mesma louca e desamparada de sempre. Espero o milagre do amadurecimento enquanto enfio os pés pelas mãos nesse mundo tão vasto! Encontrei gente rara, valiosa! Sofri também minhas decepções! Tento não tirar mais um punhado de terra do poço que cavo para enfiar-me a mim mesma nele. Não adianta. Apesar de meus esforços, o poço está cada vez mais fundo!
Vivo alarmada, sofrendo de desesperanças. Vejo drama de dor e sangue nos rostos de todos, nas atitudes de todos. Mas tenho medo de revelar minhas visões. Talvez não seja nada. Pode ser somente um ponto de vista, nada mais.
O meu problema é não ser eu mesma. O meu problema é tentar ser, inutilmente, os outros.
Quando vou achar o caminho. A ampulheta está impassível deixando a areia escorrer. Os dias estão passando...os dias estão passando...

Interessante os meus dilemas nessa época. Eu que achava tudo meio dramático e tingido de cores fortes com matizes sanguíneos não sabia nada acerca da vida. Se ela parecia difícil por um nada a fazer cheio de culpa grave por pecados pequenos, hoje ela tem um tudo a fazer cheio de dor funda. Nesse tempo eu me via como algo ainda promissor. Hoje já fiz meu futuro. E errei. Não só cavei minha própria sepultura como também outras... Não quero mais saber de mim ou me encontrar, estou farta de mim. Casei, engordei, engravidei, quase perdi... Estou com a alma voltada pra ela, minha querida Fernanda, minha doce filha tão cedo atormentada pela crueza da vida. A vida dela é um doer sem fim e eu também sofro por ela. Como é ver um sonho morto à sua frente? Ela é um sonho morto, alguém que devia ser e não foi. Tudo por minha ignorância, máxima ignorãncia. Sou culpada por ignorar. Agora sei que o maior pecado do mundo é a ignorância, pois ela se não mata aleija, deixa sequelas.Minha filha! tenho por ela um misto de amor e pena incomensuráveis. Que será da vida dela? Que angústias a atravessarão? Será feliz algum dia apesar de tudo? Ou será que o apesar pesará mais que a felicidade?
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